FRANCO DA SILVA
Sabe aquilo que todo mundo diz mas ninguém falou? Franco da Silva assume a autoria. E em voz alta. Escândalos, lendas urbanas, vergonhas alheias, piadas prontas, sacanagem na política. Franco sabe, Franco conta pra você, Franco pergunta até onde isto vai parar. Dia sim, dia não, Franco da Silva na sua tela. E o forte dele não é a rima.
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Ingenuamente, achava que Daniel Dantas era apenas um ator médio que agredia verbalmente a linda Ana Paula “boneca de porcelana que a gente não tem vontade de comer” Arósio. Mas não, é um banqueiro que afana e tem a indecência de trabalhar no Opportunity [imagine meu polegar e meu anelar meio dobrados liderando aquela mexida de mão que diz: “entendeu a piada”].
Essa dinheirama que vai e vem revolta. Os colarinhos até são presos, mas você já viu algum deles devolver o que pegou? Flagrante mesmo é só a inversão de papéis: agências descontam taxas surreais (roubam), os banqueiros lavam milhões (roubo) e a quadrilha de bem vestidos leva malotes para contar em casa (roubavam) – eles ainda são presos e a TV se orgulha de mostrar que o número de assaltos a banco diminuiu. E os assaltos dos bancos?
Penso em quem fica contando moedas para o ônibus (eu), soma o salário para dividir pelos dias do mês (você) e ainda é assaltado e fica sem o celular pré-pago (eles). Ou aqueles que esperam quietinhos o Bolsa-Furada-Família para garantir o arroz e o feijão ou colocam seus filhos em ONGS sustentadas pela Globo para aprender balé, percussão ou algum trabalho manual (“porque todos os pequenos sempre quiseram ser bailarinos ou percussionistas ou marceneiros”, os grandes devem pensar). Ainda tem as que limpam a sujeira do mundo para ganhar algum (e se dão conta da grande concentração de riqueza nas mãos de quase ninguém que elas conhecem); ou as que vendem falsidades em lojas-mesa de rua (não pagam impostos porque só tem o poder informal de venda, nunca o de compra) a fim de garantir o leitinho daquela família gigante que dorme na mesma cama e divide um espaço quase tão pequeno quanto uma cela de cadeia.
Na favela nacional, só resta roubar quem nos rouba – e aí voltamos para o ciclo do dinheiro dos outros. Não assalte ninguém, ameace um caixa eletrônico que é só um robô cuspidor de valores. Juvenal Antena de nove dedos, por favor, nos salve porque a lama já está chegando na porta.
E que essa seja apenas uma apologia à justiça.
Amém. |
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Em carta, adeptos da minha franca dureza, clamam por um discurso hedo-existencialista definitivo para os dias felizes de hoje. Achei ridículo fazê-lo – “problema é deles e de seus sorrisos amarelos de classe média”, pensei. Mas resolvi contar uma das minhas raivas contra a putaria prevenida vigente. Registro, então, esta minha nova ordem mundial...
Desde quando precisamos de um cotidiano regrado, uma alimentação balanceada, um relacionamento sólido, uma religião que responda nossas questões universais, um emprego edificante e um chefe compreensivo, um happy hour com os colegas para beber socialmente e rir discretamente – sem incomodar a mesa ao lado?
O que mais quero? Um dia inconstante em que eu fique mau humorado, uma boa dose de fritura (que cure a ressaca de ontem) e doces gordos e açucarados. Acordar de manhã para ir um trabalho que signifique apenas trabalho – e não seja um serviço – e que lá repouse sobre sua cadeira almofadada um chefe bundão, de preferência que saiba menos que eu - para virar o centro da minha falação. Saindo disso, que minha balada, com amigos de verdade, seja épica e esquecível - os outros lembrarão o que eu fiz nela, eu não. Que eu recorde apenas dos gritos de felicidade bêbada de uma noite que vai durar para sempre nas outras mesas de bar em que estiver.
A Enciclopédia Interessantíssima do Homem é direta: os que mudaram tudo estavam embriagados, de vinho, absinto e idéias; viviam drogados para encontrar novas formas de se expressar e outros mundos aqui; corriam em grupos e apanhavam pelas suas crenças e davam maus exemplos nos jornais para questionar a liberdade de ir e vir na lama (enquanto o barro todo não mudasse). Estes fizeram história e têm cicatrizes de orgulho.
Para que aumentar sua expectativa de vida se você mal existe? Bege é estado intermediário. Médio. Medíocre. Invisível. Saia desse texto e corra sem roupas na rua levantando bandeiras reais.
Encontro você na esquina.
Amém.
PS: Até as famílias perfeitas dos comerciais de margarina sabem da escravidão do Tibete e da China imperialista, da luta americana por uma falsa guerra contra o terror, do loteamento particular da Amazônia, da revolta da natureza que destruímos, dos líderes religiosos e seus votos de riqueza, da perda da esperança e do assalto político dos regimes democráticos e da espetacularização das desgraças. Não está tudo bem e ninguém está livre. Bons exemplos são apenas uma normalidade fake. Tem sangue na vida.
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Malditos Dois Minutos ou Quem tem fama, deita na cama |
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No século 21, todos terão seus tão sofridos dois minutos de fama. Da pop art à pobre art, perdemos 780 segundos de glamour, mas ganhamos 120 de superexposição nunca antes vista. Sua chance é virar o hype do dia, da internet, dos paparazzi, da TV aberta. Se sobreviver por uma semana, já pode opinar sobre o Brasil e o mundo; se durar mais que isso ganha retrospectiva de carreira, homenagens, prêmios de semanários de fofocas e, quiçá, vira embaixador da má vontade na Organização das Nações Desunidas. Todos querem você, seus amores, seu carro e sua vida pregressa tão sofrida em pequena cidade do interior. Para contar sua história e entrar nessa rodinha da fortuna, os macetes são muitos – saia sempre sem calcinha, filme todas as suas relações sexuais, faça teste de sofá com quem quer que seja para qualquer função em qualquer lugar que atraia mídia, seja simpático (a), fique, namore, case, aborte, faça parto normal e morra em revista. A partir daí, você ganha as manchetes, adquire ares de patrimônio cultural, um troféu do mundo bizarro que o Brasil vai carregar no peito. Pense em uma quase retrospectiva do meio do ano e todos que pleitearam seus dois minutos de fama: clepto-rabino, evan-sonegadores, padre que voa, criança assustadora prodígio que fala ao vivo com a voz da filha do Deus do brega, gostosas do Big Bunda Brasil, frutas, plantas e legumes sexuais, cantoras “bilésbicas que querem namorar com homem”, apresentadores acometidos pela dengue (para dar o bom exemplo, tomar soro na veia e garantir foto e novena), sex tapes que viram sucesso em bancas de jornal (sempre acompanhadas de um arrependimento católico que dá mais credibilidade às cenas despudoradas em questão), tops internacionais fora de forma que arrebatam os cachês de nossos cabides andantes, dupla de namoradas que foge (e volta), qualquer ator “último nome nos créditos de uma novela” na luta contra um câncer, defensores da “brasileirização” da Amazônia para que ela vire ou loteamento ou condomínio fechado só nosso, jornalistas que fazem novela, escritoras que estréiam no teatro e símbolos sexuais de outras décadas que desbancam para o pornô, a poesia ou a pintura. Bom, se eu beber vou preso. Mas dá para suportar esse país sóbrio? Quer aparecer? Pinta a bunda de vermelho e sobe num poste (ditado ancestral – dito quando ainda não existiam os “ensaios sensuais”). Fama para todos? Maldição. Amém |
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Na evolução dos mauricinhos e das patricinhas surgiu uma nova sociedade bege contemporânea de piadas prontas, estilo “na estica”, cabelos milimetricamente arrumados e uma certa oleosidade no ar: o “coxinha”. Eles vivem em suas casas de vila, têm mulheres pastel, filhos com cara de rico e todo um futuro pela frente.
Agora, tomaram de assalto o mercado de trabalho preenchendo altos cargos executivos. Esquartejamento moral à parte, quase todos os chefes são coxinhas - mas nem todos os coxinhas são chefes (graças a deus). E não tem nada pior do que um representante dessa espécie homem-salgadinho como superior. No escritório, lidam com o medo – o de ousar, de bater de frente, de experimentar, de se divertir e o de fazer algo absolutamente diferente para não se entediar. Nunca estão prontos para se arriscar e sempre solicitam reuniões em que falam de sua vida pessoal como se os outros tivessem interessados. No fim de semana, usam seus trajes de corrida para caminhar no parque e mantém aquele sorriso no rosto – enquanto o mundo se esfacela em tristeza. Festa de coxinha, ou melhor, recepção, tem sempre 99 pessoas – junto com o aniversariante dá o cento do salgado.
Mas coxinha também pisa na jaca. Eles organizam happy hours e não se permitem beber, ficam apenas altinhos e nunca dão vexame porque pedem uma água ao primeiro sinal de felicidade tonta. Também não fumam, só experimentam um Havana vez que outra. Você conseguirá reconhecer um coxinha na rua – vê-lo falando causa um misto de náusea e vergonha alheia. É quando olhando para outro você sente nascer aquele instinto assassino imediato. O certo é que um coxinha não nasce, eles se alastram, assim como os feios e os veados. E isso que não falei dos coxinhas-creme, hein?
Acho que vou esquartejar com palavras.
Amém
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| A voz sincera do jornalismo brasileiro |
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